O debate sobre a gestão ambiental e os modelos de negócios passou por transformações profundas nas últimas décadas [1]. À medida que os limites planetários e as crises socioecológicas se intensificam, torna-se evidente que a arquitetura industrial do século XX precisa passar por uma ruptura epistemológica [2]. Para compreender a evolução desse debate, é essencial mapear como a economia regenerativa se posiciona frente aos conceitos de sustentabilidade tradicional e economia circular [3].
1. Sustentabilidade Tradicional: “Fazer Menos Mal”
A sustentabilidade tradicional, historicamente, consolidada na lógica do Triple Bottom Line (equilíbrio entre os pilares econômico, social e ambiental), atua prioritariamente sob a perspectiva de manutenção e eficiência [4] e [5].
- Lógica operacional: Busca controlar externalidades negativas e regular os impactos da atividade produtiva. A intenção central é desacoplar o crescimento econômico da degradação dos ecossistemas.
- A pergunta-chave: “Como posso reduzir a minha pegada de carbono e mitigar meus riscos socioambientais?”.
- Limitação: A sustentabilidade convencional opera sob a premissa de manter o sistema equilibrado. No entanto, em um cenário em que fronteiras planetárias já foram ultrapassadas e biomas foram devastados, limitar-se a “não causar danos” ou atingir a neutralidade (Net Zero) revela-se insuficiente para restabelecer a saúde do planeta.
2. Economia Circular: “Eliminar o Resíduo por Design”
A economia circular surge como uma resposta direta ao modelo linear de extração, produção e descarte (cradle-to-grave) [6].
- Lógica operacional: Transita para fluxos operacionais restaurativos (cradle-to-cradle). Seu foco está no reaproveitamento de materiais, na reciclagem, no estendimento do ciclo de vida dos produtos e na criação de simbioses industriais.
- A pergunta-chave: “Como posso fechar o ciclo de vida dos recursos e transformar resíduos em insumos para novos processos?”.
- Limitação: Embora seja essencial para eliminar desperdícios, a economia circular concentra-se majoritariamente no aspecto técnico e na gestão de fluxos materiais. Sozinha, ela não garante necessariamente a restauração direta dos ecossistemas vivos dos quais os materiais foram extraídos, podendo negligenciar dimensões de saúde do solo, biodiversidade e equidade social.
3. Economia Regenerativa: Restauração Ativa e Impacto Líquido Positivo (Net Positive)
A economia regenerativa eleva o nível de ambição ao fundamentar-se nos princípios da autopoiese e dos sistemas adaptativos complexos. Ela entende as organizações como sistemas vivos integrados à biosfera [7] e [8].
- Lógica operacional: Em vez de apenas minimizar danos ou circular materiais em circuitos fechados, a regeneração atua na recomposição ativa dos estoques ecológicos e sociais. Seu objetivo é gerar um impacto líquido positivo (Net Positive), garantindo que a operação de uma empresa deixe o território e a comunidade em estado superior ao encontrado.
- A pergunta-chave: “Como a minha atividade econômica pode restabelecer a saúde do solo, aumentar a biodiversidade, recuperar rios e fortalecer as capacidades sociais do território?”.
- Visão Multicapital e Holística: Sob esse paradigma, o conceito de valor deixa de ser meramente financeiro e passa a incorporar múltiplos capitais: natural, social, humano e econômico. A economia regenerativa sintetiza e amplia as melhores práticas da economia verde e circular, condicionando a produção à coevolução com os ecossistemas.
Quadro Comparativo Sintético
Dimensão | Sustentabilidade Tradicional | Economia Circular | Economia Regenerativa |
|---|---|---|---|
Meta Principal | Manter o estado atual, reduzir danos e buscar a neutralidade (Net Zero). | Fechar ciclos de produção e eliminar a geração de resíduos (cradle-to-cradle). | Restaurar a saúde dos ecossistemas e gerar impacto líquido positivo (Net Positive). |
Foco de Atuação | Redução de emissões, eficiência de processos e conformidade (compliance). | Gestão técnica de materiais, reutilização, reciclagem e eco-design. | Recomposição do capital natural e social, autopoiese e resiliência sistêmica. |
Relação com a Natureza | Evitar a exaustão dos recursos e gerenciar riscos. | Imitar fluxos naturais para otimizar o uso de insumos. | Funcionar como parceira e catalisadora na reconstrução dos sistemas vivos. |
Em suma, enquanto a sustentabilidade tradicional busca a estabilização e a economia circular otimiza o uso técnico dos recursos, a economia regenerativa busca a florescência contínua da vida e da sociedade.
Referências.
[1] GUEDES, Luis Fernando Ascenção; ARGOLLO, Marcela Costa. A virada regenerativa: governança generativa e tecnologia como vetores de resiliência em ecossistemas organizacionais complexos. REPAE – Revista Ensino e Pesquisa em Administração e Engenharia, São Paulo, v. 12, n. 1, p. 1-17, 2026.
[2] MARTINS, Barbara Lourenço dos Santos; SILVA, Maria Jéssica de Almeida da; MARINHO, Thais. Sustentabilidade desenvolvimentista: uma análise acerca das reverberações na cadeia produtiva (um olhar panorâmico sobre os continentes e países). EmpíricaBR, v. 2, n. 1, p. 1-12, 2022.
[3] NATURA. Plano de Transição Climática. [S.l.]: Natura, 2024.
[4] EQUIPE CUMBRE. Indústria, agricultura e sociedade regenerativas: o novo capítulo da evolução humana. Cumbre Agro, 20 maio 2025. Disponível em: https://cumbre.com.br/industria-agricultura-e-sociedade-regenerativas-o-novo-capitulo-da-evolucao-humana/. Acesso em: 28 set. 2026.
[5] SEBRAE-MT. Economia Regenerativa: Caderno de Economia Sustentável. Cuiabá: Centro Sebrae de Sustentabilidade, [s.d.].
[6] ČEGAR, Saša; DREZGIĆ, Saša; ČIŠIĆ, Dragan. Exploring the regenerative economy: a comprehensive review of literature. Journal of Regenerative Economics, v. 1, n. 1, p. 1-40, 2024.
[7] CAPITAL INSTITUTE. Introduction to Regenerative Economics. [S.l.]: Capital Institute, 2023.
[8] GRUPO RONCADOR. Relato de Produção Sustentável e Regenerativa: Indicadores de Produção Sustentável e Regenerativa. [S.l.]: Grupo Roncador, [s.d.].



