Impactar juntos: os desafios das coalizões de investimento de impacto social

Segundo a última atualização do Mapa das OSCs (2025), o Brasil tem quase 900 mil organizações da sociedade civil ativas, tornando o país entre os maiores terceiros setores do mundo. Apesar de um volume muito importante, a grande maioria das organizações luta para sobreviver e corre sempre atrás de recursos financeiros para poder garantir sua operação e impacto. Neste contexto, as coalizões de investidores aparecem como novas formas de injeção de capital para as causas sociais.

Em resumo, uma coalizão de investidores de impacto é um arranjo colaborativo entre dois ou mais financiadores — públicos, privados ou filantrópicos — que alinham objetivos, recursos e práticas de forma intencional e coordenada para gerar impacto social ou ambiental mensurável. Segundo a pesquisa internacional do Bridgespan Group, coalizões bem executadas produzem resultados significativamente maiores do que doadores agindo de maneira isolada, mas alerta: a maioria ainda não é bem executada. Vamos olhar para alguns dos fatores limitantes destas alianças.

Desafio 1: Conflito de objetivos entre membros

Contudo, a diversidade dos investidores pode gerar uma divergência de interesses ou, ao contrário, juntar concorrentes de um mesmo setor, além de ter que lidar com a oposição de impacto social e retorno financeiro. Felizmente para o terceiro setor, no caso de doações ou grants, este último fator tem uma influência bem menos pois este modelo oferece uma liberdade máxima para o impacto, sem pressão de retorno financeiro.

Para ultrapassar os conflitos e desalinhamentos internos, é recomendado a construção coletiva de uma tese de impacto da coalizão e garantir uma comunicação constante e transparência sobre os processos decisivos.

Desafio 2: O problema do caroneiro

Todos nós já estivemos naquele grupo de trabalho na escola no qual um dos colegas não se envolvia no trabalho a ser cumprido. Nas coalizões, esta figura também existe e a chamamos de caroneiro (free-rider em inglês). Corresponde àquele investidor que vai assumir menos custos e riscos que os outros, mas aproveitar dos mesmos benefícios.

Mais uma vez, a transparência e o compartilhamento de informações sobre os membros e seus investimentos, assim como a definição das modalidades e condições de investimento, assinadas por todos os participantes, permitem reduzir o risco da presença de um caroneiro.

Desafio 3: A concentração de poder

É recomendada a presença de um investidor âncora que possa liderar a governança da coalizão. Contudo, um cuidado extra precisa ser tomado para que este líder não crie um gargalo, centralizando demais as decisões e amplificando os seus vieses.

Definir uma estrutura de governança, com os papeis de cada tipo de participante, regras de mandatos, os fluxos decisórios, pontos de contato dentre outros elementos, permite ter um referencial do que se espera deste investidor líder para que seja força motora e óleo na engrenagem e a partir de qual momento ele ultrapassa as funções que lhe foram concedidas.

Desafio 4: A coalizão começa com os iguais — e fica por aí

O investimento social privado no Brasil é marcado por uma concentração geográfica e institucional – no Sudeste – que vai na contramão de onde está a demanda – geralmente no Norte e Nordeste. O resultado é uma coalizão que amplia o que já existe, mas raramente alcança o que nunca foi alcançado.

A coalizão ideal não é a que une os que já financiam. É a que amplia quem pode ser financiado. Incorporar stakeholders como organizações da sociedade civil, negócios sociais e poder público, sedeados nos territórios que mais precisam, permite mudar o foco geográfico do impacto da coalizão e beneficiar do olhar especialista de quem já está lá.

Desafio 5: Poucos recursos irrestritos, muita burocracia competitiva

O modelo dominante no Brasil ainda é o grant por projeto: edital, seleção competitiva, cronograma fixo, prestação de contas por atividade. É o modelo que dá mais conforto ao financiador: parece rigoroso, mensurável e controlável. Contudo, é exatamente o que fragiliza as organizações financiadas no longo prazo pois o recurso se torna pouco reciclável e oferecendo uma sustentabilidade limitada: o que acontece com a organização uma vez o projeto encerrado? Como manter uma equipe contratada até o próximo projeto financiado começar? O tempo dedicado para prestação de contas e relatórios está coberto pelo financiamento?

Realocar a responsabilidade da burocracia (due diligence) para dentro da coalizão e migrar o recurso financeiro para um suporte irrestrito e multianual são estratégias que permitem aumentar a sustentabilidade da operação ao mesmo tempo que contornar certas barreiras de literacia financeira e do mercado por vezes cobrada por parte dos doadores.

Desafio 6: Medir impacto junto é mais difícil do que parece

Coalizões precisam de métricas compartilhadas, mas o campo brasileiro de mensuração de impacto ainda é heterogêneo: cada financiador usa frameworks distintos, cada organização adapta o que tem disponível, e raramente há uma conversa sobre o que realmente importa medir para aprender, não apenas para prestar contas.

Para superar este problema, sugerimos a definição de uma tese de impacto, ou teoria da mudança, com seus devidos indicadores, olhando tanto para o que é preciso provar de resultado quanto para o que ajudaria a melhorar os projetos financiados.

Uma pergunta para fechar e para continuar:

A coalizão sendo construída vai ampliar o acesso ou vai concentrá-lo de forma mais sofisticada?

O Brasil tem escala, diversidade e urgência suficientes para que a filantropia colaborativa seja transformadora. Tem também armadilhas suficientes para que, sem essa pergunta no centro, seja apenas mais uma forma elegante de fazer o mesmo de sempre com mais alcance e menos impacto ou, no pior dos casos, com mais reuniões!

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