Indicadores oficiais para medir impacto de projetos sociais

Imagine uma corrida em que cada atleta usa uma régua diferente para medir a distância percorrida. Parece absurdo, mas é exatamente o que acontece quando organizações criam suas próprias métricas de impacto do zero, sem ancoragem em nenhum referencial oficial.

No campo da segurança alimentar, isso pode ser mais comum do que deveria. Na nossa trajetória observamos que organizações inventam escalas próprias, definem “beneficiário” com critérios internos e produzem dados que não conversam com nenhum outro dado. E dado que não conversa é dado que não convence, especialmente investidores.

O Brasil tem ferramentas de classe mundial e gratuitas.

A Escala Brasileira de Insegurança Alimentar (EBIA), desenvolvida pelo IBGE, classifica domicílios em quatro níveis: segurança alimentar, insegurança alimentar leve, moderada ou grave. É validada, replicável e usada em pesquisas nacionais como a POF (Pesquisa de Orçamentos Familiares) e o VIGISAN (Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar).

Quando você aplica a EBIA na sua comunidade e compara com a média regional, consegue mostrar ao financiador algo muito mais poderoso do que “atendemos 500 famílias”: você demonstra o quanto sua intervenção mudou uma realidade em relação ao contexto maior.

Isso tem nome: benchmarking. E é exatamente o que fundações, fundos ESG e organismos multilaterais querem ver.

Além disso, muitos editais de financiamento exigem, explicitamente, indicadores alinhados ao SISAN (Sistema Nacional de Segurança Alimentar e Nutriconal) ou ao ODS 2 (Fome Zero). Quem já mede com indicadores oficiais simplesmente preenche o formulário. Quem não mede, reprojeta o monitoramento do zero para cada edital.

As 4 dimensões da segurança alimentar como guia de projeto

A FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura) estrutura a segurança alimentar em quatro pilares. Cada um vira um eixo de monitoramento:

  • Disponibilidade → o alimento existe e chega até as pessoas?
  • Acesso → a família tem renda ou meios para obtê-lo?
  • Utilização → o corpo consegue aproveitar os nutrientes? (água tratada, saúde, diversidade alimentar)
  • Estabilidade → esse acesso é contínuo ou some na primeira crise?

Se o seu projeto mede só “cestas entregues”, você está contando tijolos, não verificando se a casa está de pé.

Um exemplo real

Em 2011, o Ministério do Desenvolvimento Social (MDS/SAGI), em parceria com a SEPPIR, aplicou a EBIA em 169 comunidades quilombolas tituladas no Brasil. Foi um dos levantamentos mais abrangentes já realizados sobre segurança alimentar em populações tradicionais. Os dados revelaram disparidades gritantes: estudos subsequentes com a mesma metodologia mostraram que 64,9% das famílias quilombolas viviam em insegurança alimentar, contra 42% nas demais comunidades rurais da mesma região (SILVA et al., 2017).

O poder desse dado não está apenas no número, está no fato de que ele é comparável. Por usar a EBIA, os pesquisadores podiam dizer com precisão o quanto pior era a situação quilombola em relação ao entorno. Isso transforma um dado local em argumento de política pública. E argumento de política pública é, via de regra, argumento de captação de recursos.

Rigor metodológico não é burocracia. É argumento de captação.

Conclusão 

Adote indicadores oficiais como base. Personalize a análise ao contexto da sua intervenção. E invista o tempo que sobrar em fazer o projeto funcionar, não em criar métricas que já existem, foram validadas e estão disponíveis gratuitamente nos portais públicos.

Referências

FOOD AND AGRICULTURE ORGANIZATION OF THE UNITED NATIONS — FAO. Food Security: Policy Brief. Rome: FAO, jun. 2006. (FAO’s Agriculture and Development Economics Division, Issue 2.)

INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA — IBGE. Escala Brasileira de Insegurança Alimentar (EBIA): análise psicométrica de uma dimensão da Segurança Alimentar e Nutricional. Rio de Janeiro: IBGE, 2014.

INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA — IBGE. Pesquisa de Orçamentos Familiares 2017-2018: avaliação nutricional da disponibilidade domiciliar de alimentos no Brasil. Rio de Janeiro: IBGE, 2020.

BRASIL. Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome. Secretaria de Avaliação e Gestão da Informação — MDS/SAGI. Estudo Técnico n.º 01/2014: a EBIA como instrumento de mensuração da insegurança alimentar no Brasil. Brasília: MDS, 2014.

BRASIL. Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome; SECRETARIA DE POLÍTICAS DE PROMOÇÃO DA IGUALDADE RACIAL — SEPPIR. Pesquisa de Avaliação da Situação de Segurança Alimentar e Nutricional em Comunidades Quilombolas Tituladas. Brasília: MDS/SAGI; SEPPIR, 2011.

ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS — ONU. Objetivos de Desenvolvimento Sustentável: ODS 2 — Fome Zero e Agricultura Sustentável. Nova York: ONU, 2015. Disponível em: https://sdgs.un.org/goals/goal2. Acesso em: 26 mar. 2026.

REDE BRASILEIRA DE PESQUISA EM SOBERANIA E SEGURANÇA ALIMENTAR E NUTRICIONAL — REDE PENSSAN. II VIGISAN: 2º Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia da Covid-19 no Brasil — 2022. São Paulo: Fundação Friedrich Ebert, 2022.

SILVA, E. K. P. et al. Insegurança alimentar em comunidades rurais no Nordeste brasileiro: faz diferença ser quilombola? Cadernos de Saúde Pública, Rio de Janeiro, v. 33, n. 4, e00005716, 2017.

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