Quando o território entra na análise: como organizações sociais podem usar estatística espacial para enxergar — e comunicar — seu impacto

Uma organização social pode saber quantas pessoas atende, quais resultados alcança e quanto investe em cada território, mas existe uma pergunta que muitas vezes fica de fora:

Onde exatamente as coisas estão acontecendo e como o lugar influencia os resultados?

Recentemente, a Dra. Loni Philip Tabb, pesquisadora em bioestatística e estatística espacial da Drexel University, chamou atenção para uma ideia particularmente importante para quem trabalha com equidade: a escolha da unidade de análise também é uma escolha de equidade. Em seu trabalho sobre desigualdades raciais em saúde cardiovascular nos Estados Unidos, Tabb e seus colaboradores demonstraram que as diferenças entre pessoas negras e brancas não se distribuem uniformemente pelo país. Elas variam conforme o território e as características dos bairros e esta análise some quando olhamos para as médias gerais dos nossos dados. Isso traz uma provocação importante para o terceiro setor: talvez não seja suficiente perguntar “qual é o nosso impacto?”. Precisamos também perguntar “onde nosso impacto acontece, onde ele não acontece e o que o território tem a ver com isso?”.

O território não é apenas um endereço

Imagine uma organização que oferece formação profissional. Ao final do ano, ela pode apresentar:

  • 2.000 pessoas capacitadas;
  • 65% concluíram o curso;
  • 48% conseguiram emprego;
  • R$ 1,2 milhão investidos.

São informações importantes, mas agora imagine que esses dados sejam colocados em um mapa. Talvez apareça algo inesperado: a organização atende milhares de pessoas, mas quase todas estão concentradas em determinadas regiões da cidade ou talvez os resultados sejam muito melhores em alguns bairros do que em outros. Ou ainda: os territórios com menor acesso a transporte público, maior vulnerabilidade socioeconômica e menor oferta de empregos são justamente aqueles onde a organização tem menor presença.

A pergunta deixa de ser apenas: “Nosso programa funciona?”, e passa a ser: “Para quem, onde e em quais condições nosso programa funciona?”. Essa é uma mudança enorme.

Algumas perguntas que o terceiro setor poderia fazer

A análise de dados em uma dimensão espacial pode ser aplicada a praticamente qualquer área de atuação:

  • Educação: Onde estão as escolas atendidas? Onde estão as escolas que ainda não atendemos? Os resultados educacionais variam espacialmente? Existem territórios onde a evasão ou o baixo desempenho se concentram? Nossa cobertura corresponde aos territórios com maior necessidade?
  • Segurança alimentar: Onde estão as famílias atendidas? Onde estão os desertos alimentares? A distância até os pontos de distribuição influencia a adesão ao programa? Existem regiões com alta vulnerabilidade e baixa cobertura?
  • Empregabilidade: Onde vivem os participantes? Onde estão localizadas as oportunidades de emprego? Quanto tempo ou distância essas pessoas precisam percorrer para trabalhar? Os resultados de inserção profissional variam conforme o território?
  • Meio ambiente: Onde estão as escolas, comunidades ou áreas mais expostas a riscos ambientais? A exposição a determinados problemas ambientais está concentrada espacialmente? Onde os projetos de educação ou recuperação ambiental estão chegando?
  • Saúde: Onde estão os usuários dos serviços? Existem áreas com maior concentração de determinados problemas? A distância até os serviços influencia o acesso? Os resultados são diferentes conforme as características do bairro?

Nesse sentido, o território pode funcionar simultaneamente como objeto de análise, variável explicativa e critério para tomada de decisão.

A visualização criativa de dados

Uma análise espacial pode ser estatisticamente excelente e, ainda assim, ser péssima para comunicação: um mapa cheio de cores, 30 camadas e 15 indicadores não necessariamente conta uma história. Para organizações sociais, isso é particularmente importante porque os dados precisam conversar com públicos muito diferentes: equipes técnicas, gestores, conselhos, financiadores, governos, comunidades e sociedade.

Pesquisas e experiências recentes com organizações sociais mostram justamente o potencial de combinar dados, contexto geográfico e narrativa para tornar o impacto mais compreensível. Por isso, uma pergunta norteador deveria ser: “Qual é a melhor forma visual de fazer alguém perceber algo que seria difícil perceber olhando apenas para uma tabela?”. A seguir, alguns exemplos de visualizações mais criativas:

  • Mapas antes/depois: destacar a evolução que ocorreu a partir da intervenção da organização. A mudança territorial se torna parte da narrativa.
  • Zoom do macro para o micro (ou o contrário): Começar pelo Brasil, depois o estado, seguido pelo município e por fim o bairro. Pode terminar com a experiência de uma comunidade e/ou de uma pessoa. Esta lógica permite conectar escala sistêmica e experiência individual.
  • Mapeamento das lacunas, não apenas das conquistas: olhar para quem ainda não está sendo atendido como oportunidade estratégico para a continuação do programa.

Também é uma decisão de equidade

Toda visualização escolhe o que mostrar e o que esconder: uma média nacional pode esconder desigualdades regionais; uma média municipal pode esconder desigualdades entre bairros; uma média de um programa pode esconder diferenças entre grupos; e, um mapa pode esconder pessoas quando agregamos os dados em unidades territoriais grandes demais. Por isso, a escolha da escala, da unidade geográfica, dos indicadores e da forma de representação não é apenas uma questão estética ou técnica. O Urban Institute, em seu Do No Harm Guide, chama atenção justamente para isso: nossas decisões sobre quais dados destacar, quais histórias contar e quais informações deixar de fora influenciam quais grupos são valorizados, invisibilizados ou estigmatizados.

Para organizações sociais, a pergunta é “Estamos fazendo as perguntas certas aos nossos dados?”

Porque muitas vezes a informação necessária já está dentro da organização em planilhas de beneficiários, organizações atendidas, registros de atividades, avaliações, pesquisas e relatórios. O que falta é conectar essas informações ao lugar e quando fazemos isso, podemos descobrir que o território não é apenas o cenário onde o impacto acontece: ele também ajuda a explicar o impacto. Mapas, gráficos e visualizações criativas podem fazer algo ainda mais poderoso: transformar essa descoberta em uma história que gestores, financiadores, parceiros e comunidades consigam enxergar — e usar para agir.

Talvez seja aí que comece uma abordagem realmente estratégica de dados para o impacto social.

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